Pois bem. Entramos no quarto 17 do Hospital São Judas Tadeu. Quando digo
“entramos”, não pense que foi pouca gente não: era eu, o doutor Balako e a doutora Ciska, duas criaturas cheias de intenção e pouca certeza. Logo na porta, antes mesmo de qualquer diagnóstico, surgiu uma promessa de fofoca — que é coisa séria, quase um anúncio de tempestade.
A acompanhante do paciente, seu José, foi chamada por uma assistente social bem na hora da nossa entrada e saiu dizendo que, quando voltasse, ia contar tudinho o que tinha ouvido. Até agora, nada. E eu aqui escrevendo esse relato, com essa pulga atrás da orelha do tamanho de um bode. E aí, como fica minha situação? Processo a pessoa? Espero? Sofro em silêncio? Porque curioso eu sou, e dos grandes.
Mas deixemos isso pra lá, que uma hora a verdade aparece. Verdade gosta de plateia.
Entramos, enfim, no quarto. Seu José, deitado mas com os olhos mais vivos que feira em dia de pagamento, me perguntou logo:
— E aí, doutor? Qual é a novidade?
Respirei fundo, com coragem emprestada, e soltei:
— Vou ser o novo prefeito da cidade!
Disse isso mais como quem reza do que como quem acredita. Não sei se dou conta, não sei se quero, mas já que a ideia me escolheu, vou sustentar.
Seu José não pensou nem meio segundo:
— Não vá não. Vai fazer coisa errada. Política não presta.
Aquilo me doeu mais que injeção mal dada.
— Poxa, achei que eu tinha seu voto!
— Pois não tem! — disse ele. — Vai entrar na política e fazer bobeira.
Aí eu pensei comigo mesmo: ora, bobeira por bobeira, nisso eu já sou doutor.
Falei:
— Já sou bobologista formado! Só me falta o cargo. Veja minha proposta: todas as noites vão ser chuvosas, pra ajudar o povo a dormir, e de manhã vai ter canto de passarinho na janela de todo mundo.
Seu José cruzou os braços:
— Ainda não voto.
Foi quando a doutora Ciska, criatura sensata, tentou me acudir: — Você precisa mostrar que isso é bom pras pessoas.
Aquilo me bateu como desafio. Me deu um negócio no peito, uma inspiração danada. E danei a assoviar feito bem-te-vi em manhã de verão, igualzinho ao que canta no pé de acerola lá de casa — que foi com ele que eu aprendi.
Seu José abriu um sorriso:
— Agora sim. Agora eu voto em você.
Aquilo me deu um orgulho danado. Saí do quarto decidido, assoviando feito passarinho solto, corredor afora, atrás de novos votos. Vai que dá certo. Se não der, pelo menos canto bonito eu já sei.
Hospital São Judas Tadeu
Dr. Balako
