Relatórios Bobológicos

Quem é o palhaço aqui?

16/04/26

Entramos no quarto tentando fazer o que raramente conseguimos: silêncio. Havia dois pacientes e dois acompanhantes, e um deles estava dormindo profundamente. Nossa chegada foi cuidadosa, quase em câmera lenta, como quem não quer interromper um sonho bom.

Mas, antes mesmo de qualquer apresentação, o paciente abriu os olhos e disse que já tinha percebido nossa presença. Disse que sentiu.

Achamos aquilo curioso. Perguntamos se ele tinha algum tipo de radar especial para detectar palhaços. Ele apenas sorriu.

Como ele havia acabado de acordar, nos oferecemos para cantar uma música de ninar, algo bem tranquilo para acompanhar aquele despertar. Foi quando ele comentou que a presença de palhaços lembrava muito uma época da vida dele em que participava de apresentações. Aquilo acendeu nossa curiosidade imediatamente.

Perguntamos que tipo de apresentações eram essas, e ele contou que participava da Folia de Reis. Bastou essa informação para mudarmos completamente o repertório. Pegamos o ukulele e começamos a tocar uma música tradicional da folia.

Aos poucos o quarto foi entrando no clima. Os acompanhantes começaram a cantar junto, o outro paciente também se animou, e logo estávamos todos participando daquele pequeno coro improvisado.

Quando a música terminou, o paciente revelou mais um detalhe: disse que também tocava na Folia de Reis e perguntou se queríamos ver. 

Respondemos sem pensar duas vezes:

— Claro que queremos!

Foi então que ele se ajeitou na cama, mudou a expressão e disse, com um brilho travesso nos olhos:

— Eu era o palhaço da Folia… e o palhaço também sabe tocar.

Antes que pudéssemos entender completamente o que aquilo significava, ele fez um gesto como quem vinha nos “tocar” para fora do quarto, no melhor estilo dos palhaços da folia que espantam e correm atrás das pessoas.

Assustados e respeitando a tradição, recuamos rapidamente para o corredor. Saímos ouvindo a gargalhada dele ecoar pelo quarto e ficamos pensando que talvez aquela primeira frase dele explicasse tudo: ele realmente tinha sentido nossa presença.

Afinal, palhaço reconhece palhaço… e também sabe quando é hora de tocar os colegas para fora.

Hospital de Amor Infantojuvenil
Dr. Grilo