Relatórios Bobológicos

Quando paro para escutar

31/03/25

Salve, salve, time. Aqui quem fala é o Palhaço JP, e estou no segundo mês curtindo de montão na Santa Casa de Misericórdia de Barretos.

Uma das singularidades da Santa Casa é a diversidade de público. Passamos nas UTIs, internações, maternidade, pediatria e psiquiatria. Esse meu relato será sobre a psiquiatria. É uma parte bem peculiar do hospital, como eu já trabalhei em CAPS e tenho uma pesquisa artística voltada para a temática da saúde mental, esse sempre foi um lugar que me despertou curiosidade.

Uma coisa que percebi nesses dois meses é que o local de convivência é pequeno comparado ao número de pacientes. Isso para mim foi uma dificuldade, pois eu sentia que quando fazia uma interação que chamasse mais atenção eu acabava incomodando, invadindo o espaço dos pacientes que estavam fazendo outras coisas. Então a técnica que adotamos nas últimas visitas foi passar de núcleo em núcleo, ativando mais a escuta para o que eles traziam. E funcionou legal, acredito que nesse último mês eu e a Dra. Ciska conseguimos criar vínculo e fazer parte da natureza daquele ambiente.

Certa vez, quando entramos, o paciente John veio falar conosco. John estava com uma folha de papel e quando perguntamos o que era aquilo, ele respondeu que era jardineiro e que estava pegando o endereço das pessoas para trabalhar em suas casas, dizia que cada endereço era um trabalho fechado. Descemos mais ao fundo da ala psiquiátrica e tinha um pessoal jogando forca. Brincamos umas rodadas com eles.

Depois encontrei uma senhora, Dona Vilma, e ela começou a falar comigo. O problema é que, acho que pela medicação, sua língua parecia pesada e era difícil entender o que Dona Vilma dizia. Captei o final da frase onde ela dizia o nome de muitos parentes, entre eles, filho, irmãos, marido e amante. Achei que ela falava de seus parentes e fiquei admirado com o tanto de parentes que ela tinha, então, ela me corrigiu dizendo que está ali por muito tempo e não tinha ninguém para vê-la, nem filho, irmãos, marido ou amante. Dona Vilma sentia-se só. Quando comecei a sair ela fez questão de me levar até a porta, porém, Dona Vilma caminhava de forma um pouco desequilibrada, parecia que ia cair. Então, fui sendo levado, ao mesmo tempo que a estava segurando.

No caminho, John pediu o endereço de Dona Vilma. Ela respondeu com aquela língua pesada que não dava para entender nada direito, mas John muito empenhado anotou o endereço de alguma forma, dizendo que já estava bom para sair. Quando estávamos perto da porta me veio uma dúvida. Se eu estava segurando Dona Vilma, como ela iria voltar sem cair? Comecei a debater essa logística com a Ciska até que entregamos Dona Vilma para um funcionário do hospital. Ela se soltou, engatou num pinote e voltou correndo. Fiquei deveras impressionado.

Santa Casa de Misericórdia de Barretos
Dr. João Pimentão