Meu povo, prestem atenção que lá vem história da boa, dessas que não se inventam, só se testemunham. Pois veja: você já teve o privilégio — que é coisa rara! — de conhecer um narrador de festa do peão? Sim, sim, dessas festas de rodeio onde o povo se reúne pra ver boi pulando, cavalo estrebuchando e gente gritando “segura peão!” como se estivesse invocando santo? Pois eu conheci um sujeito desses. E que figura, minha gente!
A voz do homem, eu juro pelos dentes que tenho na boca, parecia a trombeta com canto dos vaqueiros do sertão! Só quem escuta sabe. Mas antes disso, deixe eu lhe contar direitinho como essa história começou…
Estávamos eu, Dr. Balako e Dr. Ossildo fazendo a ronda costumeira lá no Hospital São Judas Tadeu. Era manhã de terça-feira, o sol ainda mal tinha secado o orvalho das folhas, quando a enfermeira nos cochichou uma novidade:
— No quarto 12 tem um cabra diferente. Acompanha um paciente, mas é narrador de rodeio, gente fina.
— É agora, minha gente! Chegou o momento! — anunciei, mais empolgado que jumento solto em roçado de milho.
— Momento de quê, criatura? — perguntou Ossildo, já desconfiado.
— De mostrar meu talento! Eu vou é participar da Festa do Peão de Barretos! Se esse narrador vir meu potencial, me indica na hora!
— Você? E coragem, tem? — retrucou Ossildo, com a dúvida natural de quem já viu o homem correr de galinha brava.
— Coragem é palavra grande demais, mas vontade eu tenho! — eu disse, já puxando a cadeira de rodinha, sentando-se feito peão de faz-de-conta.
Começou a me sacudir feito cavalo xucro, braços abertos, o olhar fixo no nada, como se estivesse encarando o campo de prova e quase gritei “segura, peão!”, de tão real que parecia.
— Homem, você vai se arrebentar! — Ossildo me avisou, mas eu só gritava:
— Cavalo selado só passa uma vez, e o meu tá estacionado é no quarto ao lado!
E como quem chama o destino pelo nome, o narrador apareceu. Um senhor de sorriso manso, desses que a gente confia de graça. Chegou no posto de enfermagem, se apresentou com toda simpatia, mas ó… a voz dele? Nada de impressionante. Soava como de quem vende bilhete de rifa na porta da igreja.
— O senhor é narrador de rodeio mesmo? — perguntei, já achando que era lorota.
— Sou sim. Mas se eu soltar a voz aqui, vai ter enfermeira subindo na maca de susto! Vou mostrar só um tantinho…
E foi então, minha gente, que o céu se abriu, os passarinhos silenciaram, e até o monitor cardíaco fez questão de ouvir:
— “Minha gente bonitaaa, minha gente arrumadaaa, se preparem pra ver o Ossildo na sela montada!”
Menino! Me subiu um arrepio que foi da nuca até o dedão do pé. Cheguei a sentir o bigode tremer! A gente não teve tempo de mostrar o show completo, mas o ensaio ficou feito. E o Ossildo? Ficou se achando o próprio vaqueiro de novela das oito.
E assim termina esse capítulo da nossa história, mas ó… que venha Barretos, que talento a gente já viu que tem. Só falta o cavalo aceitar.
Dr. Balako
