Relatórios Bobológicos

O dia em que arrumei uma paquera no Hospital São Judas

3/02/26

Ora, se eu já lhe contei que arrumei uma paquera no Hospital São Judas?

Não?!

Então, se ajeite aí na cadeira, respire fundo, que essa história não é de se ouvir em pé. Há quem diga que o amor só floresce em lugares propícios: à beira do mar, sob a luz da lua, num café charmoso com musiquinha ao fundo. Mas, meu amigo, amor mesmo é bicho matreiro. Nasce onde quer. Até em hospital. E eu que o diga.

Tudo começou num desses dias comuns — pelo menos, aparentemente. A gente, no nosso ofício de visitar os pacientes, entra nos quartos como quem entra num teatro sem saber o enredo da peça. A gente sabe que vai encontrar gente. Mas quem, como, por quê… isso é surpresa. E confesso: é uma das partes que mais gosto. É como abrir um presente embrulhado em silêncio.

Pois bem. Naquela manhã, eu, Dr. Balako (sim, com K mesmo, que é pra dar um ar mais internacional), e minha fiel escudeira, a Dra. Ciska, abrimos a porta do quarto 314. E ali, meus olhos viram — não um paciente — mas uma visão. Uma mulher, loira de cabelos longos, cor de luz de fim de tarde. Dona Sandra era o nome dela. Mas naquele momento, pra mim, ela era Dona Encantamento.

E foi batata: ela olhou pros meus cabelos, loiros também — embora mais curtos e com um quê de gema de ovo orgânico — e riu. Riu com os olhos. E eu, que não sou bobo, ri de volta, com todo o charme que me restava.

Foi quando começou a paquera. E olha, eu não tenho prática nessas coisas. Meu negócio é bisturi de palavras, não flecha de Cupido. Mas Dona Sandra começou a me elogiar, e eu, todo besta, comecei a me sentir. Parecia que tinha ganhado um prêmio de beleza e ninguém me avisou. Até Ciska olhou de lado, tipo quem diz: “Vai com calma, galã.”

Mas o coração é bicho valente. Quando sente cheiro de romance, se lança feito cabrito solto no pasto. Então, entre uma conversa e outra, decidi me arriscar. Lembrei daquela velha cantiga que ouvi não sei onde — ou inventei, já nem sei mais — e fui.

Estufei o peito, mirei no coração dela e disparei:

“Se um dia nois se gostasse

Se um dia nois se queresse

Se nois dois se empareasse

Se juntim nois dois vivesse

Se juntim nois dois morasse

É só piscar o olho, que entendi seu interesse…”

Mal terminei o verso, e não é que ela piscou o olho?!

Ciska ficou paralisada, como quem testemunha um milagre. E eu, mais paralisado ainda, feito quem ganhou na loteria e esqueceu de buscar o prêmio. Foi um piscar  só, mas ali cabia um poema inteiro.

Depois disso, toda vez que a gente voltava no quarto dela, era uma troca de olhares, um elogio, uma piscadinha marota. Eu fazia que não era comigo, mas por dentro já achando todo todo.

E assim foi que, sem querer querendo, arrumei um paquera no Hospital São Judas.

Se o final foi feliz?

Bom… isso já é história pra outro dia. E eu?

Tô aqui, esperando a próxima visita. Vai que o destino resolve piscar de novo.

Hospital São Judas Tadeu
Dr. Balako