Relatórios Bobológicos

No compasso do outro

3/02/26

Descobri que trabalhar como palhaço em hospital é um exercício diário de humildade. A gente chega achando que carrega no bolso algumas gargalhadas, meia dúzia de truques, histórias prontas… e logo percebe que isso não basta. Cada paciente é um mundo. E mundos não se visitam com mapas prontos.

Conectar-se é sempre o maior desafio. Não porque faltem palavras, mas porque às vezes falta escuta. É preciso silenciar dentro da gente para perceber: quem mora aqui? O que esse universo precisa hoje?

Há pacientes que pedem riso. Outros pedem silêncio. Alguns pedem histórias. Outros, música. E há aqueles que pedem tudo isso misturado — como quem tem sede de vida.

Reencontrei no Hospital São Judas um desses mundos raros. Um paciente que é escritor e professor, alguém que vive cercado de perguntas e encantamentos. Ele ensina enquanto aprende, aprende enquanto ensina. Tem fome de cultura, curiosidade insaciável, dessas que não adoecem com o corpo. Às vezes quer ouvir histórias. Às vezes quer ouvir músicas. Sempre quer atravessar pontes.

Foi aí que percebi: para encontrá-lo, eu precisaria ampliar meu repertório. Não bastava saber fazer. Era preciso aprender a ser com ele.

Na minha busca por esse caminho, tropecei na cumbia — e digo tropecei porque os encontros importantes na vida não são planejados; eles acontecem. A cumbia nasceu do encontro improvável entre culturas distintas: indígenas, africanas, europeias. Gente que não se escolheu, mas precisou conviver. E, dessa convivência, nasceu um ritmo de conquista — não pela força, mas pelo balanço, pelo convite, pelo passo que respeita o tempo do outro.

Aprender a tocar cumbia me ensinou algo precioso: não se conquista ninguém com pressa. A conexão é um convite gentil. Um passo para frente, outro de espera. Um ouvir atento. Um sentir compartilhado.

Talvez seja isso que faço quando entro no quarto desse paciente. Não levo apenas o palhaço. Levo um ritmo novo, uma escuta mais larga, uma tentativa sincera de dançar no compasso dele. E, quem sabe, conquistar mais um pouco da sua simpatia — não como quem vence, mas como quem se encontra.

Hospital São Judas Tadeu
Dr. Balako