Janeiro começou com cheiro de novidade. Novo corredor, novos quartos, novos olhares curiosos e um friozinho bom na barriga: estreia no Hospital Infantil.
Fui recebido com sorrisos generosos pelo doutor Ossildo e por toda a equipe, que abriram as portas não só do hospital, mas também da confiança. E assim começou essa fase: conhecendo pequenos gigantes, especialistas em coragem, bagunças e brincadeiras.Entre esses encontros, houve um dia particularmente barulhento (no melhor sentido possível).
Entramos no quarto da Carol. Lá estavam ela, seus pais e alguns tios — aquela plateia com cara de “o que será que vai acontecer agora?”. Começamos a conversa, como quem não quer nada, até que algo chamou atenção: unhas grandes, pintadas de preto, estilo decidido.
Perguntamos, com a maior seriedade científica do mundo: — Estamos diante de uma roqueira?
Carol confirmou. Os olhos brilharam. Os tios também eram do rock. Os pais? Do rock. Era praticamente um festival familiar.Diante de tal diagnóstico musical, só havia uma conduta possível: transformar o quarto em palco.
Doutor Ossildo, doutor Figuerino e eu Dr Baltzar iniciamos oficialmente o “Rock in Leito”. Instrumentos afinados, guitarras invisíveis, solos dramáticos, expressões intensas e, claro, muita energia de Rock in Roll. O hospital, que costuma ecoar passos apressados e conversas técnicas, naquele momento ecoava energia de show.
Carol dançava na cama dentro das suas possibilidades, comandando tudo com a autoridade de quem claramente era a vocalista da banda. E então aconteceu o impensável: os pais e os tios entraram na dança. Teve bate-cabeça cuidadosamente adaptado às normas hospitalares, teve coreografia improvisada, teve adulto lembrando que ainda sabe brincar.O quarto virou rua. Virou palco. Virou memória sendo criada ali, no meio do tratamento.
O mais bonito foi ver o brilho no olhar da Carol ao assistir seus próprios pais dançando daquele jeito — meio desengonçado, meio adolescente tardio, completamente felizes. E eles, por sua vez, experimentando algo raro: rir e poder brincar dentro de um hospital.
Por alguns minutos, o impossível aconteceu.
Teve gargalhada onde geralmente há preocupação.
Teve música onde geralmente há silêncio.
Teve infância sendo infância.
Janeiro mal começou e já ensinou uma grande verdade bobológica: às vezes o que um dia precisa é de um bom rock and roll com os amigos.
Dr. Baltazar
