
Salve, salve, caros seres humanos. Aqui quem fala é o Palhaço JP, para mais um relatório bobológico.
Neste dia, estava a Dra. Ciska e eu em mais uma jornada de trabalho, pelos extensos corredores da Santa Casa.
É interessante salientar que nosso trabalho é feito sempre em dupla. Mas você deve estar se perguntando: “Ora, mas por quê? Vocês não são palhaços autossuficientes?” Claro que sim, meu caro gafanhoto. Porém, a dupla no hospital nos ajuda na interação, construção de conteúdo, segurança, empatia e em possíveis correções de erros.
O fato é que nesse dia havia duas portas abertas. A Ciska entrou para um lado e eu já estava lago atrás, porém, na outra porta, surge uma senhora olhando para mim e falando com alguém dentro do quarto. Ela disse me fitando: “Olha, Beth, vem ver o palhaço!” Eu olhei-a de volta. E nesses micro segundinhos, Ciska entrou em um quarto sozinha e eu fiquei no corredor com aquelas duas pessoas do quarto da frente, também completamente só.
A primeira senhora chama Beth, uma senhora um pouco mais jovem. Ela anda a passos leves e carrega com ela um olhar brilhante e infantil. Eu fico e dou atenção para Beth. Estava muito nervoso, com receio de ter deixado Ciska, mas confesso que parecia coerente eu ficar com elas. Começo a conversar com Beth, que é muito generosa e ri das coisas que falo.
Beth parecia muito feliz em me ver. Para ela, eu era apenas “palhaço”. Quando vejo isso, penso sobre o que essa figura representa para as pessoas e como essa imagem já está cheia de significados. Beth não se importava, particularmente, com algum aspecto da minha aparência, nem com o meu gênero, nem com minha voz, nem com o meu cabelo. Beth via em mim a correspondência de sua ideia sobre um palhaço e ela entendia que, naquele momento, eu estava lá para fazer dela uma pessoa mais feliz.
Eu, em minhas leituras da situação, entendi isso apenas pelo seu olhar e passei a agir de acordo. Mas a grande magia é que o motor não era necessariamente as coisas que eu fazia ou falava. O grande motor é que Beth já acreditava que a minha figura representava aquele sentimento que ela precisava sentir: Felicidade.
Beth me encara com os olhos marejados e me pergunta: “Palhaço, você me ama?” Sinto um formigamento que vem da boca do estômago. Existem tantas coisas não ditas que se abrigam dentro das coisas que são ditas. Você já parou para pensar nisso? Nessa pergunta de Beth, tão singela e sincera, consigo pescar algumas coisas não ditas que saltam invisíveis ao olho nu. Ela me diz que está com medo, que se sente só, que precisa de acolhimento. E respondo prontamente: “I love you” utilizando das minhas habilidades bilinguis. Quando olho para Beth, aqueles olhos brilhantes e marejados se desfazem em lágrimas que parecem conferir algum tipo de alívio. Alívio de alguém que precisava ouvir que era amada. Mesmo que por um palhaço sem jeito que não sabe conter as lágrimas quando se depara com alguém que chora.
Santa Casa de Misericórdia de Barretos
Dr. João Pimentão
