
Thainá Rodrigues | Idealizadora da Dra. Ricota
Eu sempre me pergunto como somos capazes de estarmos presente num momento tão delicado para ressignificá-lo. A verdade é que não tem resposta certa, cada encontro alcança uma dramaturgia única. A ação dos palhaços pode ser a mesma, mas o encontro com os pacientes se modifica.
Gosto de escrever os relatórios pensando num momento risível e marcante. Dessa vez, escolhi um marcante que rendeu boas gargalhadas também. O texto pode representar muito além do nosso trabalho e sim, a poesia também pode fazer parte desse relato. Já enrolei demais, agora, vou deixar a Ricota continuar a história…
Com um sorriso capaz de ir de orelha a orelha e uma gargalhada capaz de ser ouvida a 2 km de distância, hoje eu vou falar da nossa flor Jasmim[1]. O nosso primeiro encontro foi na UTI. Sentada na poltrona, ela nos contou os nomes engraçados de pessoas que ela conhece, de flor até o nome mais cabeludo. Ali descobrimos uma grande artista, com um potencial altamente risível de dar gargalhadas bonitas.
Os outros encontros aconteceram na internação, cada um com a sua energia, com a sua história, algumas cheias de gargalhadas, outras mais intensas. Nos tornamos pessoas confiáveis que escutavam as aventuras e tristezas… nem sempre é só riso. Em meio a um gráfico maluco das emoções, conhecemos um pouquinho mais sobre a nossa Jasmim, que já aprontou bastante nos carnavais da vida. Entre um carnaval e um furo, chegou o samba para se estabelecer como um pico elevado do nosso gráfico.
O samba foi como aquele momento catártico, que você pode jogar os outros para cima, pode dançar, se soltar pra balançar o corpo todo. Eita, que foi bom demais! A irmã de Jasmim nos mostrou como se dança, e foi ali, naquela energia encantadora que nós mantivemos. O quarto estava cheio e todas se divertiram muito. Estava tão bom que não queríamos mais sair de lá.
Na vontade de ficar, propus um desafio para ser dito por cada uma delas. O desafio se desvirtuou e ganhou camadas mais engraçadas de todo aquele momento.
Do desabafo ao samba, aquele foi o melhor quarto que pudemos visitar naquele dia. Cada encontro teve a sua dramaturgia. Na minha memória tenho escutado as gargalhadas de mulheres incríveis. E tudo isso me faz entender ainda mais a potência do palhaço dentro do hospital: estamos presentes para ressignificar aquele espaço. Quando há abertura para o jogo, nós jogamos para a diversão e, às vezes, para viver o oposto do real. Acho que além dos encontros, tive uma aula com a Jasmim sobre o meu próprio ofício.
[1] Nome fictício
Dra. Ricota
Hospital de Amor
