Veja bem, meu amigo, há doenças que não moram no corpo. Instalam-se é no juízo. E não adianta remédio, injeção nem receita carimbada, porque o sujeito não adoeceu por bactéria nem por vírus, mas por excesso de vida. Esse é o tipo de enfermidade que médico nenhum assume, mas todo mundo reconhece.
Pois foi assim que aconteceu na Santa Casa, quando eu, o doutor Balako e o doutor Figuerino — dois doutores respeitáveis, ainda que pouco confiáveis — entramos num quarto por encomenda de uma moça que achava que ali faltava alegria e sobrava silêncio.
Mal botei o pé no quarto, dei de cara com uma varanda grande, dessas que não foram feitas pra ficar vazias. E varanda vazia, pra mim, é como sanfona fechada: dá uma tristeza danada. Aquilo ali pedia gente, conversa, um cafezinho, talvez um forrozinho leve, coisa fina.
Eu não me aguentei e soltei logo:
— Minha gente, essa varanda aqui é um desperdício de alegria! Isso dá uma festa das boas!
Foi quando Dona Maria, deitada mas longe de estar vencida, me olhou de cima a baixo, com aquele olhar de quem mede o cabra antes de aceitar o acordo.
— Só tem um porém, disse ela. — Qual?, perguntei, já desconfiado.
— O senhor só pode usar a varanda se tocar um forró nessa sanfona aí.
Era um desafio. E desafio, quando aparece, não é pra ser recusado, é pra ser honrado. Peguei a sanfona, invoquei Luiz Gonzaga, e deixei o fole contar o resto da história.
E não é que Dona Maria se levantou? Cantou. Dançou. Fez o corpo lembrar que ainda sabia viver. Aquilo ali não foi fisioterapia, foi desaforo à doença.
Quando terminei, anunciei, cheio de coragem emprestada:
— Desafio cumprido. Mais tarde volto com uns quarenta amigos pra ocupar essa varanda.
Saí do quarto feliz da vida, embora com um problema sério nas mãos: como arrumar quarenta amigos num hospital sem virar caso de polícia?
Agora, você deve estar se perguntando: e a doença? Pois bem. Fui saber depois que Dona Maria tinha ordem expressa do fisioterapeuta para ficar quieta, em repouso, sem estripulia. Mas acontece que a mulher sofre de um mal grave e incurável: inquietação crônica com tendência à alegria.
Ela não para em casa, não se recupera como mandam os livros, porque o corpo até aceita repousar, mas a alma não concorda. Resultado: volta sempre pro hospital, não por fraqueza, mas por teimosia de viver.
Meu diagnóstico — que não vale um carimbo — é o seguinte: Dona Maria não está doente. Está apenas desobedecendo agudo. Mas fique à vontade para discordar, porque esse tipo de caso cada um entende de um jeito.
Dr. Balako
Santa Casa de Misericórdia de Barretos
