Saudações, meus caros leitores.
Aqui quem fala é o Dr. João Pimentão, e venho por meio deste escrito contar sobre um momento muito bonito que tivemos no Hospital de Amor. Desta vez fomos para a UTI. Eu estava acompanhado pelo ilustríssimo Dr.
Figuerino. Trabalhar na UTI é ainda mais delicado: os pacientes estão em condições mais graves, e por isso sempre perguntamos para as técnicas como eles estão, quem não está sedado, se os pacientes acordados sentem alguma dor mais intensa e — principalmente — quem a equipe recomenda que a gente visite. Acho fundamental ouvir as percepções dos funcionários, que acompanham de perto cada pessoa e têm grande propriedade para indicar onde nossa intervenção bobológica pode ajudar.
Passamos por algumas camas até chegarmos ao Sr. José. A fonoaudióloga Bella nos contou que ele estava passando por um processo de traqueostomia. Não entendo totalmente como funciona, mas ele estava consciente; e, apesar de naquele momento não estar com obstruções grandes, ele não conseguia falar.
Bella — muito humanizada, como sempre — conseguiu emprestar um aparelho de eletrolaringe para o seu José. É tipo um microfone que se encosta no pescoço, gerando vibrações que viram voz. Resumindo: seu José estava simplesmente feliz da vida de poder falar naquele momento.
Figuerino e eu (o burro vem na frente) conversamos um pouco com ele. Logo depois pegamos nossos instrumentos e começamos a cantar algumas músicas infantis.
Abrimos com “Meu limão, meu limoeiro”. Percebemos que seu José conhecia a letra.
Aí começamos a brincar com ele, pedindo para completar os finais das frases:
— “Uma vez…”
E ele respondia, com sua voz de robô:
— “tim-dolelê.”
— “Outra vez…”
E ele vinha, estilo Stephen Hawking:
— “tim-dolalá.”
Engatamos então em “Se essa rua fosse minha”, “Peixe Vivo”… gastamos todo o repertório das clássicas infantis.
E foi isso.
Um momento simples, mas bonito demais: ver um paciente vivendo um instante de alegria em meio aos percalços do tratamento.
Hospital de Amor
Dr. João Pimentão
