Relatórios Bobológicos

A linda voz do seu José

3/02/26

Saudações, meus caros leitores.

Aqui quem fala é o Dr. João Pimentão, e venho por meio deste escrito contar sobre  um momento muito bonito que tivemos no Hospital de Amor. Desta vez fomos para a UTI. Eu estava acompanhado pelo ilustríssimo Dr.

Figuerino. Trabalhar na UTI é ainda mais delicado: os pacientes estão em condições  mais graves, e por isso sempre perguntamos para as técnicas como eles estão,  quem não está sedado, se os pacientes acordados sentem alguma dor mais intensa  e — principalmente — quem a equipe recomenda que a gente visite. Acho  fundamental ouvir as percepções dos funcionários, que acompanham de perto cada  pessoa e têm grande propriedade para indicar onde nossa intervenção bobológica  pode ajudar.

Passamos por algumas camas até chegarmos ao Sr. José. A fonoaudióloga Bella  nos contou que ele estava passando por um processo de traqueostomia. Não  entendo totalmente como funciona, mas ele estava consciente; e, apesar de naquele  momento não estar com obstruções grandes, ele não conseguia falar.

Bella — muito humanizada, como sempre — conseguiu emprestar um aparelho de  eletrolaringe para o seu José. É tipo um microfone que se encosta no pescoço,  gerando vibrações que viram voz. Resumindo: seu José estava simplesmente feliz  da vida de poder falar naquele momento.

Figuerino e eu (o burro vem na frente) conversamos um pouco com ele. Logo depois  pegamos nossos instrumentos e começamos a cantar algumas músicas infantis.

Abrimos com “Meu limão, meu limoeiro”. Percebemos que seu José conhecia a letra.

Aí começamos a brincar com ele, pedindo para completar os finais das frases:

— “Uma vez…”

E ele respondia, com sua voz de robô:

— “tim-dolelê.”

— “Outra vez…”

E ele vinha, estilo Stephen Hawking:

— “tim-dolalá.”

Engatamos então em “Se essa rua fosse minha”, “Peixe Vivo”… gastamos todo o  repertório das clássicas infantis.

E foi isso.

Um momento simples, mas bonito demais: ver um paciente vivendo um instante de  alegria em meio aos percalços do tratamento.

Hospital de Amor
Dr. João Pimentão