Num dia quente como os pecados do mundo, quando até o vento do hospital parecia que tava abanando preguiça, entramos nós — doutores muito especializados na arte da bobagem — no quarto 23 do Hospital São Judas. Eu, Dr. Balako Dubalakobako Ú (prazer em conhecê-lo e, se precisar de mim, chame outro), o destemido Dr. Ossildo Puro Osso da Silva, e mais ninguém, porque já bastava palhaço demais para uma visita só.
Ali deitado, com cara de quem já tinha visto a vida de todos os ângulos e a ver TV, estava o Sr. Hernandez. Um senhor alto e de bar bem-feita, daqueles que já nasceu com história no bolso e outra na ponta da língua. Quando nos viu, largou a televisão como quem troca uma novela ruim por uma boa fofoca.
— ¡Qué placer conocerlos! — disse ele, com um espanhol tão convincente que eu quase botei fé que tava no México.
Aí o circo armou-se sem lona. Porque bastou a gente se apresentar com nossos nomes, que o hemem solta:
— También fui payaso.
Ora, vejam só! Um irmão de tinta e de nariz vermelho! Mas não era um palhaço qualquer, não. Era um palhaço fugitivo, envolvido até numa história de amor, traição e… presunto!
— Me apaixonei pela mulher do dono do circo — confessou ele, com a maior naturalidade, como quem diz que esqueceu de comprar pão.
E nós, que já entramos no quarto achando que éramos os mestres da piada, fomos ficando pequenos diante do espetáculo dele. Porque o homem fugiu do circo e foi parar numa fábrica de presunto em Araraquara. Veja só a geografia desse romance: do picadeiro à linguiça.
— Eu era o responsável pela qualidade do presunto… mas comia mais do que avaliava. — disse ele, com a mesma seriedade de um cientista confessando um erro de laboratório.
E foi aí que eu, besta que sou, tentei aproveitar a presença do “especialista” para resolver uma dúvida doméstica:
— Será que o senhor podia dar uma olhada num presunto que tá na minha geladeira? Tô desconfiado…
Mas o Dr. Ossildo, sempre mais sensato do que eu, me segurou no cabresto:
— Pode ficar sentado, Balako. Esse presunto da sua geladeira já tá com diploma de vencido.
E o Sr. Hernandez, com aquele olho brilhoso de quem tá armando a última parte do truque, deu a cartada final:
— Pois saibam vocês… que essa história todinha é mentira.
Ah, meu amigo, ele se desmanchou numa risada tão boa, tão solta, que parecia que tinha acabado de enganar o mundo inteiro com um bilhete de loteria falso. E nós? Nós rimos junto, claro! Porque ali, deitado naquela cama de hospital, estava um mestre do engano bonito — aquele que não engana pra tirar, mas pra dar: dar riso, dar leveza, dar tempo bom dentro de um tempo difícil.
Às vezes ser feito de palhaço é a maior honraria. Porque é sinal de que a gente ainda pode se deixar enganar, rir de si mesmo e, acima de tudo, viver.
Dr. Balako
