Relatórios Bobológicos

A banda passou, mas o sino que ecoou

16/04/26

Começamos cantando canções antigas, dessas que já nasceram com cheiro de poesia. “A Banda”, de Chico Buarque, atravessava o corredor como quem passeia pela memória da gente. E quando puxamos “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”, de Sérgio Sampaio, parecia que até as paredes sabiam o refrão. Não era só música. Era lembrança acordando devagar dentro de cada um.

Entramos pelo hospital convidando: “Venha um pouquinho… só um pouquinho…”. Não era barulho desmedido, era chamado. Um convite simples para interromper por alguns minutos a dureza do dia e experimentar outra coisa — brincar, festejar, cantar junto. Nosso cortejo passava espalhando esse pedido manso: parem um instante, a vida também sabe dançar.

Era cortejo no Hospital Antenor Duarte. Nariz vermelho, passos miúdos, zabumba marcando o compasso. E então o tempo fez uma pausa. Dessas pausas que parecem suspender o mundo.

Um menino — ainda menino — estava ali para tocar o sino. O sino que anuncia que a luta contra o câncer encontrou descanso. Fiquei olhando aquele objeto simples, pendurado, quase discreto. Quem diria que um sino pudesse carregar tanto céu dentro de si?

Quando ele tocou, o som não foi alto. Mas foi profundo. Espalhou-se pelos corredores como se dissesse: “A vida insiste”. A mãe falou algumas palavras. A equipe também. Eu não saberia repetir nenhuma frase exata. Só sei que havia verdade nelas. E quando a verdade aparece, a gente reconhece pelo jeito que os olhos ficam marejados sem pedir licença.

O mais bonito foi ver os outros pequenos guerreiros — cada um em seu próprio caminho — sorrindo junto. Não era apenas a vitória de um. Era um sopro de esperança compartilhado, desses que a gente guarda no bolso do avental para usar nos dias mais cinzentos.

Eu, que entrei ali puxando marchinha antiga, saí com a sensação de que o verdadeiro bloco já estava formado. Não aquele de rua, mas o invisível — onde a vida, teimosa e delicada, decide florescer apesar de tudo.

Depois do sino, voltamos ao cortejo. Mas já não éramos os mesmos. Havia no riso um brilho diferente. Como se cada acorde dissesse, baixinho: hoje a vida dançou mais forte.

E enquanto ajeitava o nariz vermelho, pensei: é por isso que a gente vem. Para lembrar — cantando — que mesmo dentro do hospital há dias em que o coração resolve sair em desfile.

 

Santa Casa de Misericórdia de Barretos 
Dr. Balako