Relatórios Bobológicos

SIMPÓSIO DE CUIDADOS PALIATIVOS: UMA PALHAÇARIA PALIATIVISTA

3/02/26

Os cuidados paliativos propõem uma abordagem ampliada do cuidado, em que o foco não está apenas na cura, mas na qualidade de vida, no alívio do sofrimento, na dignidade e na escuta de pacientes e familiares em uma situação tão delicada: quando estão diante da morte. Nesse contexto, o hospital passa a ser habitado por histórias, medos, desejos, afetos, sonhos, frustrações.. Vira um mar de emoções.  É justamente nesse território que a palhaçaria hospitalar se insere, trazendo uma linguagem artística que ressignifica o ambiente e amplia as possibilidades de cuidado.

Como palhaça, não me interessa “distrair” o paciente desse turbilhão de sentimentos, mas encontrar, nesse mar, onde habita ainda a alegria, o afeto, o legado. Por isso trabalhamos conceitos como vulnerabilidade, o ridículo e a humanidade. Em um espaço marcado por controle e protocolos, estar ali assumindo o erro, o não saber, esperamos abrir espaço para que pacientes, familiares e equipe também possam mostrar suas fragilidades e fracassos. Isso nos torna humanos! Buscamos criar brechas e sentido, mesmo diante da dor, da frustração, da morte.

Participar em um simpósio de cuidados paliativos foi gratificante. Não só por nos ampliar o entendimento de cuidado paliativo (o que aumenta nosso repertório!), mas também poder partilhar a nossa visão, de quem circula pelos corredores, leito a leito, testemunhando despedidas, silêncios e conversas que muitas vezes não aparecem nos prontuários. Compartilhar essa experiência em um simpósio significou, para nós, reconhecimento.

O olhar do palhaço sobre a morte e o luto não é de negação, mas de aproximação sensível. A morte não é tratada apenas como desfecho clínico, e sim como parte da experiência humana. O palhaço, por ser uma figura sem escrúpulos, que trabalha com a verdade, contribui para legitimar emoções ambivalentes: falar bobagens enquanto se fala de coisas seríssimas. Além disso, nossa atuação também alcança a equipe, oferecendo momentos de respiro, humor e escuta que colaboram para elaborar a sobrecarga emocional e prevenir o esgotamento.

Ao ocupar um lugar em um simpósio de cuidados paliativos, fez com que pudéssemos nos sentir como parte legítima da equipe multiprofissional, de profissionais que estão construindo um saber na prática que dialoga com medicina, enfermagem, psicologia, serviço social e outras áreas. Se a cura não é o objetivo principal e sim a vida, é lá que devemos estar.. Falar de morte, luto e finitude sob a perspectiva do palhaço é, em última instância, defender uma ética do encontro: menos preocupada em controlar o desfecho e mais comprometida com a qualidade da presença enquanto ele acontece.

Dra. Alavanka Motolovs de Capote Valente