Relatórios Bobológicos

Radionovelas Improvisadas e Afetos Sonoros

3/02/26

Eu, Dr. Baltazar, e o Dr. João Pimentão adentramos a UTI em mais um daqueles dias em  que o silêncio fala baixo e tudo pede cuidado. Era um lugar que visitávamos toda semana,  mas que nunca era igual. Ali encontramos Dona Lucélia, envolta em um cobertor azul, tão  azul que parecia um pedacinho do céu dobrado sobre ela.

Achamos seu nome bonito demais. Nome de atriz. Nome de novela de rádio. Nome que  pedia história. Sem muito aviso, decidimos que naquele quarto nasceria uma radionovela.

Falamos do céu, falamos do azul, falamos do nome que parecia música. E, juntos,  compusemos uma canção para Dona Lucélia, cantada baixinho, como quem conta um  segredo:

 Dona Lucélia, estrela a brilhar,

 No céu azul que veio te cobrir,

 Teu nome é novela no ar,

 É luz que ensina a gente a sorrir.

 Lucélia, Lucélia, céu em forma de véu,  Cobertor azul, pedacinho do céu.

Quando a música terminou, Dona Lucélia choveu pelos olhos. Nós ficamos emocionados.  Havia algo no ar que não cabia em prontuário nenhum.

Saímos do quarto felizes, com a sensação de termos feito mais uma novela, dessas que  não passam no rádio, mas ficam no coração.

E assim, nossa radionovela se despediu, mandando um beijo sonoro para Dona Lucélia,  nossa grande amiga, com a certeza de que o céu, naquele dia, tinha descido um pouco  mais perto.

 Dr. Baltazar
 Alexandre Souza