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Entre a vulnerabilidade e o afeto: a dificuldade dos homens de expressar sentimentos

7/08/25

Por que os homens têm dificuldade – ou simplesmente não gostam – de falar sobre seus sentimentos? Talvez possamos responder essa questão apontando para o machismo estrutural que permeia a sociedade há décadas.

Frases como “homem não chora”, “vira homem” ou “homem que é homem resolve as coisas de forma diferente” são comuns desde a infância. Além disso, o machismo se manifesta em atitudes como a proibição de brincar com certos brinquedos ou o uso de determinadas cores.

Atitudes como essas, além de privar os homens de falarem sobre os seus sentimentos, medos e receios, também impedem que eles demonstrem afeto causando uma “masculinidade frágil”.

A expressão masculinidade frágil refere-se à insegurança e à ansiedade que certos homens sentem sobre sua própria masculinidade, sobretudo quando percebem que não se enquadram nos padrões culturais tradicionais do que se espera de um homem. Isso pode levar a atitudes compensatórias, muitas vezes de caráter agressivo ou defensivo, na tentativa de reafirmar sua identidade masculina.

Muitas pessoas acreditam que as mulheres sejam naturalmente mais emotivas, enquanto os homens seriam mais racionais. No entanto, o comportamento humano, de acordo com estudos da neurociência, se modifica conforme as experiências e traumas vividos. Assim, é possível afirmar que os homens tendem a não se expor emocionalmente devido às mensagens e ensinamentos recebidos ao longo da vida.

Contudo, esse tipo de comportamento pode ser mudado. O escritor Marcos Piangers defende que o “eu te amo”, por mais que seja uma palavra que nos assusta, muda a nossa vida. “A gente só dá aquilo que um dia já recebemos. O ‘eu te amo’ constrange, liberta e tem poder… Nunca é tarde para começarmos a praticar [o ato de dizer que amamos as pessoas].”

Falar sobre sentimentos é realmente algo libertador, tão como soltar um peso que estamos carregando há muito tempo. Toda pessoa é composta por histórias, traumas, vivências e alegrias, porém, cabe a elas se conhecerem para a melhoria das relações interpessoais.

Thiago Queiroz, psicólogo e escritor.

Um bom exemplo é o escritor Thiago Queiroz, que quando descobriu que sua esposa estava grávida, decidiu olhar a paternidade de uma forma mais especial. Durante a sua entrevista no Hospital de Amor, ele disse que vê a paternidade como um portal e que após o nascimento dos seus quatros filhos, ele não é a mesma pessoa.

Thiago também ressalta que demonstrar sentimentos é um desafio para muitos homens. “Para mim sempre foi muito complexo, porque não tinha essa memória do ‘eu te amo’, de dar um beijo ou de abraçar com vontade. Quando pensamos na construção do homem na sociedade em que vivemos, percebemos que falamos menos porque somos ensinados a engolir o choro e seguir em frente, a sermos irredutíveis, como se nada pudesse nos abalar… e sabemos que as coisas nos abalam”, desabafou.

Saber amar e ser amado precisa ser lembrado diariamente. Por isso, o Instituto Sociocultural do Hospital de Amor convidou Thiago Queiroz para falar sobre “Parentalidade e a Construção de Vínculos Seguros” com os colaboradores da instituição, em mais uma edição do projeto Cuidando de Quem Cuida, viabilizado por meio da Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), com apoio do Ministério da Cultura.

Durante a palestra, o escritor compartilhou reflexões sobre os desafios da parentalidade, a importância da escuta ativa e a construção de vínculos afetivos seguros com os filhos, especialmente em tempos de sobrecarga emocional e transformações sociais.

Outro trecho importante da entrevista foi quando Thiago detalhou sua relação com os filhos. “Quando comecei a construir uma relação mais próxima e afetiva com eles, queria que soubessem que podiam falar comigo sobre qualquer coisa. Ter filhos me salvou, porque eu não tinha noção do que era empatia, e foi através da paternidade que comecei a perceber o mundo que existe dentro da cabeça de uma criança que amo e quero entender”, revelou.

Talvez o processo de cura para uma masculinidade frágil ou para uma sociedade machista — que ainda caçoa de uma pessoa que se expõe vulnerável — comece com o amor. Com o amor puro, que apenas a inocência de uma criança consegue nos despertar; com um amor romântico, no qual queremos nos tornar pessoas melhores; com o amor materno e paterno, quando quebramos barreiras e falamos abertamente “eu te amo”; ou talvez a gente encontre cura no amor da amizade, no qual, com jeito e sabedoria, conseguimos trabalhar para deixar o mundo melhor.